Hoje chove.
Hoje chove. Não o digo pela importância que assume esse facto por si só, digo-o porque o dia nasceu assim, e como ele nasce é importante, ou não fossem os dias o que vivemos, a nossa vida.
O quadro sucessivo de imagens que a ele lhe ia chegando através da janela era não menos comum daquele visto no dia anterior, a cidade ia assumindo um padrão, em que quando tão pouco diferencia é tão mais importante que se note que hoje chove. Ontem, assim como hoje, tudo o que se via de manhã pela janela é um mesmo, ou o mesmo, jogo de tabuleiro. As peças diferem na forma ou na cor, mas os movimentos, uma monotonia lenta, um tom grave solitário que se estende, vibrando na cortina do tempo.
Um café sorvia-se, enquanto pensamentos escoavam para fora, como o lento e ondulante vapor que da chávena saía dançando. Quão insignificantes são estes acontecimentos, a chuva que cai, o vapor que emana do café a ferver, quão insignificantes são. Será porque ocorrem, ou correm tanta vez na corrida cíclica dos dias? Do tempo que exerce o seu poderoso atrito sobre nós. A um dado momento a chuva que cai acabará por cessar, o vapor assim também, quando o café por fim sorvido. Os dias acabarão também, um dia, e a vida acabará com eles, mas é-nos tão insignificante o correr dos dias, como todas as coisas que o compõe.
Qual a última vez que ele olhou verdadeiramente a dança do vapor enquanto bebia o primeiro café do dia? Qual a última vez que ele estendeu a mão sentindo as gotas escorrerem pela palma e caírem onde cairiam se a não estendesse? Qual a última vez em que ele sentiu viver?
Qual a última vez?…
Julho 5, 2009 às 12:23 pm
Ora ora…vejo que regressas em força. fazes bem em remar contra a corrente das palavras, continua meu caro. Abraço.