Sexta-feira, dia 8, assisti a duas peças que marcam o fim de 3 anos do projecto Clube de Teatro da Escola E.B. 2,3/S de Celorico de Basto, a “História de Babbot” de Patrícia Portela e “O Chefe” adaptado do livro “O Sr. Krauss”, de Gonçalo M. Tavares.
Antes de deixar aqui a minha critica – se tal posso chamar – apenas a opinião de alguém que apreciando estava compenetrado ao desenrolar na plateia, quero dizer que para os críticos – não falo de mim – aqueles, os quais se dedicam inteiramente a essa função, o trabalho é relativamente fácil se pusermos sob o mesmo patamar o critico e o actor, o critico quando escreve algo sobre o que viu, vai para casa, pensa, tem a noite toda, o dia seguinte até, para o fazer, sem pressões, sem uma audiência à espera da próxima palavra, o actor no teatro – e parafraseando certa passagem do filme Libertino – “…se deixa cair um lenço em palco ele volta para o sufocar.”
Longe de convencionalismos, postura esta tomada pelo grupo, deixo aqui as palavras que ontem, mesmo durante o decorrer das peças, já me dançavam na cabeça, aliciando-me, seduzindo-me até a construir isto que aqui deixo.
Começo pela “História de Babbot”, interpretado por Liliana Mota, que nos conduz de forma alucinante numa catadupa intermitente de viagens, deixando-nos sem fôlego para acompanhar as suas passadas surreais, cujos pensamentos voam num turbilhão, numa barafunda total que raia o absurdo, “como tudo estivesse a ser reposto no lugar exacto que não era o seu”. O texto é todo ele a questão eterna da insatisfação humana, a mudança implícita a cada ser, impressa diria mesmo. Assim somos, como a personagem com a qual a Liliana se fundiu de tal forma que no fim tive a sensação que não mais sabia quem era. Assim somos, deambulando, transeuntes do mesmo lugar e de lugares vários, eternamente condenados a procurar o nosso sítio, que na verdade não é nosso mas de todo o mundo, e se todo o mundo é nosso estamos também condenados a nunca encontrar esse sítio, ou não será o encontro a nossa perdição?
Agora focando “O Chefe”, não querendo correr o risco de ser um “spoiler” para quem irá ver dia 15 no Auditório Ilídio Santos em Cabeceiras de Basto, mas não posso deixar passar a oportunidade de dizer o quanto esta peça se assemelha com o status quo actual.
Guiando-nos pelo labirinto, diria cómico, da hierarquia enviesada do poder, o actores mostram-nos o funcionamento mecânico e plástico, em que todos são iguais, servindo-se com unhas e dentes da tão famigerada retórica, ou palavra oca, para inaugurar o invisível, para ludibriar o estado de sitio de um país com índices de medidas, soluções de fachadas à base de perífrases que invariavelmente convergem no mesmo buraco de agulha, um vazio de ideias. Mas “isto é democracia…VIVA!”
Não quero entrar no cliché de aconselho vivamente a ir, não o farei, quem for sensível, ou seja, todos, deveriam ir, não estão de alguma a fazer-me um favor a mim, nem a eles muito menos, mas a vocês próprios.
Obrigado Gabriel, Lili, Catarina,Susana, Sílvia, Tânia e Vânia. Obrigado professor Ricardo Carvalho. Bravo!
