When the music’s over, i´m turning out the lights.

Posted in leaves on Julho 30, 2009 by José Duarte

Cinzeiro

Posted in Poesia on Julho 15, 2009 by José Duarte

No regresso as lembranças…

….sua contemplação.

Na memória a verdade vai nua,

veste-a transparente a emoção.

Essa mágoa, não é só tua,

Também eu te toquei a mão.

 

Que é do eco das vozes que não lembramos?

Onde param todos os momentos não contados, por entre falas soltas, mais tarde…

Que enredo é este?

Que chama acende, e fogaz, não mais arde.

Que vivências ficam em pontos finais?

Que personagens interpretamos não mais?

 

As  reticências são pouco, sabem a pouco,

Muito seria preciso, mais que três pontos,

Mais que pequenos contos, ou romances inteiros,

Tudo aquilo que passou, que se não contou,

Fica como cinza, por esses demais cinzeiros.

Outras gravidades

Posted in Crónicas do correr dos dias on Julho 7, 2009 by José Duarte

Aquele tronco rude era o seu apoio, sentado sob a copa da árvore, disposto no seio de nenhum pensamento concreto, no centro de nenhuma base lógica, mas no todo de uma divagação que composta de nenhum pensamento, o completava, esse único paradoxo compunha o ambiente. Um nada concreto, um todo vago, esvoaçante, indomável, indefinivél o passo seguinte, tão selvagem como a coregrafia do vento com as folhas que se projectavam naquela terra coberta, naquela erva, ao sol, desperta…

Estendeu a mão, a frescura invadiu o vago da divagação e preencheu-o com milhares de tons sensitivos, dos macios aos ásperos, dos leves aos rispidos, mais uma vez o paradoxo, mas uma vez a liberdade que dele advinha.

O oposto que compõe a natureza, a dicotomia entre os seus elementos, é, pelo que vemos, pelo que ele sentiu, a plenitude, e sendo a plenitude, torna-se não rude como o tronco, mas selváticamente apetecível.

Naquele dia outros se acomodaram sob copas de outras árvores, outros tocaram a erva, outros se sentiram seduzidos. A sedução pela natureza, o encontro com as sensações que desperta, é a gravidade que nos puxa à terra, que nos impele ao toque.

Será que alguém resistiu à sedução?…

O igual fumo das cidades

Posted in Crónicas do correr dos dias on Julho 6, 2009 by José Duarte

A cidade está cheia…de idiotas!

Foi este, apenas este e nenhum outro, o seu pensamento.

A verdade estava diante dos seus olhos, a cidade era a crua e insipida verdade de uma turba negra, disforme, impaciente, incapaz de olhar o céu, ou mesmo descer o olhar à rua onde caminha. Transeuntes salpicando lama, quando um passo mais apressado pisava forte, desapercebido o caminhante, numa poça, e o  único som que daí surgia, nem mesmo capaz de o fazer assim olhar o chão.

O mundo era aquela turba, naquela fria noite, todo o mundo lhe aparecia uma cortina de fumo espessa, contínua, composta por todo aquele movimento. Sentia-se miserável ao atravessá-la, não porque lhe fazia parte, mas porque caminhava por entre ela, seria o único caminhante fumando por desagrado aquela cortina?

Seria o único?…

Hoje chove.

Posted in Crónicas do correr dos dias on Julho 5, 2009 by José Duarte

Hoje chove. Não o digo pela importância que assume esse facto por si só, digo-o porque o dia nasceu assim, e como ele nasce é importante, ou não fossem os dias o que vivemos, a nossa vida.

O quadro sucessivo de imagens que a ele lhe ia chegando através da janela era não menos comum daquele visto no dia anterior, a cidade ia assumindo um padrão, em que quando tão pouco diferencia é tão mais importante que se note que hoje chove. Ontem, assim como hoje, tudo o que se via de manhã pela janela é um mesmo, ou o mesmo, jogo de tabuleiro. As peças diferem na forma ou na cor, mas os movimentos, uma monotonia lenta, um tom grave solitário que se estende, vibrando na cortina do tempo.

 Um café sorvia-se, enquanto pensamentos escoavam para fora, como o lento e ondulante vapor que da chávena saía dançando. Quão insignificantes são estes acontecimentos, a chuva que cai, o vapor que emana do café a ferver, quão insignificantes são. Será porque ocorrem, ou correm tanta vez na corrida cíclica dos dias? Do tempo que exerce o seu poderoso atrito sobre nós. A um dado momento a chuva que cai acabará por cessar, o vapor assim também, quando o café por fim sorvido. Os dias acabarão também, um dia, e a vida acabará com eles, mas é-nos tão insignificante o correr dos dias, como todas as coisas que o compõe.

Qual a última vez que ele olhou verdadeiramente a dança do vapor enquanto bebia o primeiro café do dia? Qual a última vez que ele estendeu a mão sentindo as gotas escorrerem pela palma e caírem onde cairiam se a não estendesse? Qual a última vez em que ele sentiu viver?

Qual a última vez?…

Âncora da loucura.

Posted in Poesia on Julho 2, 2009 by José Duarte

Tenho tanto para dizer que me escapam palavras por entre as milhares que caem em mim.
Tenho tanto para escrever que nem sei porque tento escrever, se perderei metade daquilo que quero dizer.
Compensará a parte pelo todo?
Virá a parte perdida, cair em mim mais tarde se a não der por esquecida?

Diz-se pouco…tão pouco.
Podia dizer-se mais, oh, tanto mais!
Vive-se no resguardo, como barco ancorado, sempre, no mesmo cais.
Não se deriva como um outro, um outro louco, barco louco, cujo rumo é o sem rumo de procurar tudo o que possa ser procurado…de encontrar tudo o que possa ser encontrado, e aí dizer-se, não pouco, não tão pouco:
Não vivo como um louco, mas partilho de loucuras tais.

[ Recomendado]

Posted in Uncategorized on Junho 29, 2009 by José Duarte

“…É atroz, é cruel, é obsceno. Mas isso que importa se Cristiano Ronaldo vai jogar pelo Real Madrid? Que importa isso num momento em que o mundo inteiro chora a morte de Michael Jackson? Que importa que uma cidade faça da tortura premeditada de um animal indefenso uma festa colectiva que se repetirá, implacável, no ano seguinte? É isto cultura? É isto civilização? Ou será antes barbárie?”

Espanha negra é o título do último post do sempre acutilante e lúcido Caderno de Saramago.

Como já acima referi, recomendo a leitura. Obrigatória? Não o direi, mas necessária, sem dúvida.